Manoel Luís Salgado Guimaraes: Nação e Civilização nos trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, Nº1, 1988, P 5-27.
Daniel F. Carvalho
Trazendo à luz características do nascimento do Estado brasileiro, o autor pontua fatores que foram determinantes para a singularidade da criação da ideia de país, além do papel intelectual e político da instituição que assumiu este desafio. Este cenário é detalhadamente esmiuçado pelo doutor em história pela Universidade Livre de Berlim que, além deste artigo, assinou a tese A escrita da história e a questão nacional no Brasil – 1838 – 1857; e encerrou sua carreira pedagógica ministrando seus conhecimentos aos seus alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Motivado pelo padrão europeu no século XIX, o Brasil emerge dentro do cenário mundial em busca de sua própria historiografia, no entanto, desde este início, o espaço que se abre na conjectura nacional apresenta algumas especificidades. “Não o espaço sujeito à competição acadêmica própria das universidades europeias, mas o espaço da academia de escolhidos e eleitos a partir de relações sociais” (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988, op. cit. p. 5), ou seja, intelectuais com alto nível de relacionamento com o Estado, mas a necessidade de criar história não advém apenas de um modelo de enquadramento internacional, a criação deste projeto tinha um objetivo mais abrangente “ Assim, é no bojo do processo de consolidação do Estado Nacional que se viabiliza um projeto de se pensar a história brasileira de forma sistematizada. A criação, em 1838, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (...) Uma vez implantado o Estado Nacional, impunha-se como tarefa o delineamento de um perfil para a “Nação brasileira”, capaz de lhe garantir uma identidade própria no conjunto mais amplo das Nações”. (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988, op. cit. p. 6). A necessidade de se criar uma identidade nacional era vital para manter a unidade do Estado, através do exemplo da história de vários povos europeus, observou-se que o sentimento de unidade originava-se de alguma relação de povo, de sociedade que gerasse um senso em comum, uma homogeneização, e era exatamente daí que se originava o desafio do IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), pois o perfil do povo no qual seria selado esta identidade era completamente heterogêneo, sobre esta dificuldade o autor sinaliza que antes da criação do instituto o tema já era discutido “ para as quais já alertava José Bonifácio em 1813: “...amalgação muito difícil será a liga de tanto metal heterogêneo, como brancos, mulatos, pretos livres e escravos, índios etc. etc. etc., em um corpo sólido e político”” (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988, op. cit. p. 6) . Apesar do desafio, o empreendimento do instituto a esta obra se fazia importante, pois esta identidade cultural culminaria num estado mais unido e organizado, dificultando ou distanciando a influência das nações vizinhas que geravam dentro de si movimentos revolucionários.
O autor cita também que o IHGB possui uma metodologia influenciada no iluminismo, ou seja, sua interpretação da historiografia baseava-se no conceito de linearidade, num processo evolutivo, tratando de forma natural a emancipação do Brasil como se fosse apenas mais uma etapa civilizatória e por esta influência é que a ligação entre a pátria mãe e a recente nação não é perdida. Esta ideia, podemos constatar no seguinte trecho: “ Num processo muito próprio ao caso brasileiro, a construção da ideia de Nação não se assenta sobre uma oposição à antiga metrópole portuguesa; muito ao contrário, a nova Nação brasileira se reconhece como continuadora de uma certa tarefa civilizadora iniciada pela colonização portuguesa.” (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988, op. cit. p. 6), assim com a ideologia civilizatória propagada, a identidade nacional começa a ser esboçada gerando na mente da sociedade um referencial de diferença entre dois outros “... os grandes inimigos externos do Brasil serão as repúblicas latino-americanas, corporificando a forma republicana de governo, ao mesmo tempo, a representação da barbárie.” e “ ...ficarão excluídos deste projeto por não serem portadores da noção de civilização: índios e negros”. (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988,op. cit. p. 7)
Estes são os pontos tratados na primeira parte do texto; a partir do segundo ponto, o autor discorre sobre a criação do IHGB:
· sob o aspecto intelectual influenciado por conceitos Iluministas que predominava a visão dos estudiosos “Herdeiro de uma tradição marcadamente iluminista e vivenciado como tal por seus membros 8, o instituto propõe-se a levar acabo um projeto dos novos tempos, cuja marca é a soberania do princípio nacional enquanto critério fundamental definidor de uma identidade social” (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988,op. cit. p. 8);
· sob o aspecto social que com a orientação da historiografia linear tenta uma justificativa da supremacia racial “A Nação, cujo retrato o instituto se propõe traçar, deve, portanto, surgir como o desdobramento, nos trópicos, de uma civilização branca e europeia. Tarefa sem dúvida a exigir esforços” (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988,op. cit p. 8) almejando inclusive considerar como opção para ratificar este pensamento o embranquecimento de uma parte específica da sociedade, referindo-se ao portador da verdadeira brasilidade: os índios. “no incentivo à miscigenação como forma de branqueamento desses grupos indígenas” (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988, op. cit. p. 24)
· e sob o aspecto político, devido a inegável influência do imperador “a 1º de dezembro de 1938, o Instituto Histórico colocava-se sob a proteção do imperador, proteção esta que terá como expressão uma ajuda financeira, que a cada ano significará uma parcela maior do orçamento da instituição. Cinco anos após a sua fundação, as verbas do Estado Imperial já representavam 75% do orçamento do IHGB, porcentagem que tendeu a se manter constante ao longo do século XIX. Tendo em vista que, para a realização de seus projetos especiais, tais como viagens exploratórias, pesquisas e coletas de material em arquivos estrangeiros, o IHGB se via obrigado a recorrer ao Estado com o pedido de verbas extras, pode-se avaliar como decisiva a ajuda do Estado para sua existência material.” (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988, op.cit. p. 8)
Quanto às publicações do instituto autor cita as temáticas que mais predominas em suas páginas: “questão indígena, viagens e explorações e a história regional, ou das províncias (que são controladas de forma centralizadora no Rio de Janeiro, graças à sistematização de filiais do Instituto em outras cidades, mais uma característica iluminista: “As semelhanças com o modelo francês parecem bastante evidentes: da mesma forma que as academias literárias e científicas provinciais francesas do século XVIII articulavam-se na teia mais ampla do processo de centralização levado a cabo pelo Estado, sediado em Paris, do Rio de janeiro as luzes deveriam expandir-se para as províncias, integrando-as ao projeto de centralização do Estado e criando os suportes necessários para a construção da Nação brasileira” (Manoel Luís Salgado Guimarães, 1988, op. cit. p. 8)
Observação: Caso seja utilizado em bibliografia peço que informe a fonte.
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